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Livro analisa o que afasta o brasileiro do vinho

Em "Ensaios de Economia do Vinho", Mauro Salvo analisa preço, renda e taxa de rolha, e alerta que o acordo UE-Mercosul pode não beneficiar o consumidor final

09 de setembro de 2026
Livro analisa o que afasta o brasileiro do vinho

O economista e sommelier Mauro Salvo lançou "Ensaios de Economia do Vinho" (Ed. Laurea, 178 páginas), seu segundo livro dedicado ao setor vitivinícola. Com o subtítulo "Verdades Inconvenientes sobre o Mercado Vitivinícola no Brasil", a obra reúne oito artigos que analisam, sob a ótica da teoria econômica, temas como formação de preço, distribuição, regulação do mercado, comportamento do varejista e a taxa de rolha. O livro está à venda no site umlivro.com.br e na Amazon, por R$ 79,90.

Doutor em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e funcionário do Banco Central do Brasil, Salvo se aproximou do setor primeiro como apreciador de vinho, antes de aprofundar o interesse por meio da formação em sommelier, pesquisa acadêmica e visitas a vinícolas em diferentes países. "A maioria dos apreciadores de vinho nem faz ideia da complexa cadeia que envolve a chegada do produto aos pontos de venda", afirma o autor, que já havia publicado o e-book "Visitando o que Pensa o Consumidor de Vinho no Brasil".

Mauro Salvo 2.jpg Um dos pontos centrais do livro, segundo Salvo, é a dificuldade de expandir a base de consumidores de vinho no Brasil, hoje estimada em 2,5 a 3 litros per capita ao ano, um dos índices mais baixos entre os países produtores e consumidores da bebida. Para o autor, essa expansão depende de dois fatores: redução de preços e aumento de renda, especialmente nas faixas de menor poder aquisitivo, que respondem por 70% da população brasileira com renda familiar mensal de até R$ 3 mil. No capítulo "Por que o vinho é caro no Brasil?", Salvo atribui o preço elevado a três fatores combinados: a cascata de tributos e margens que encarece o vinho importado, a percepção do produto como bem de luxo — diferente da lógica de países de maior consumo, onde o vinho é tratado como bebida do dia a dia — e o custo de produção mais alto do vinho nacional, agravado pela mesma cadeia de tributação, margens e logística.

Sobre o acordo de livre-comércio entre União Europeia e Mercosul, que deve reduzir gradualmente as tarifas sobre vinhos importados ao longo da próxima década, Salvo se mostra cético quanto ao repasse da economia ao consumidor final. Para o autor, o risco é que a cadeia de distribuição se aproprie da diferença gerada pela redução tributária, sob justificativas como recomposição de margens, beneficiando-se da falta de transparência do setor. Ele cita como precedente momentos de forte valorização cambial que geraram expectativa de queda de preços, sem que a redução se concretizasse nas prateleiras.

Já sobre a taxa de rolha, tema que ganhou repercussão nacional após o episódio envolvendo o cantor Ed Motta, Salvo dedica um capítulo inteiro à discussão, mobilizando oito abordagens teóricas distintas da economia que, segundo ele, convergem raramente para uma mesma conclusão: a de que o problema não está na cobrança em si, mas no valor praticado. Para o autor, restaurantes não têm como justificar taxas de R$ 100 a R$ 200, e essa prática tende a ser prejudicial ao próprio estabelecimento no longo prazo.

O livro tem prefácio de Júlio César Kunz, vice-presidente da Associação Brasileira de Sommeliers, para quem a contribuição de Salvo está menos em oferecer respostas confortáveis do que em formular perguntas incômodas. "Ele questiona consensos, tensiona discursos estabelecidos e nos obriga a olhar para o vinho brasileiro com menos romantismo e mais responsabilidade analítica", escreve Kunz no prefácio.

Entre os oito capítulos da obra estão ainda análises sobre rotulagem e assimetria de informação, letramento enológico e autorregulação, uma proposta de bolsa de vinhos como estrutura de mercado para o setor e uma discussão sobre o descaminho de vinhos. O público-alvo declarado inclui produtores, gestores de vinícolas, varejistas, importadores e exportadores, sommeliers, gestores de bares e restaurantes, economistas e profissionais de marketing.

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