Mestre dos Vinhos: o jogo que virou ferramenta de networking
Criado pelo executivo Marcos Gomez como um projeto pessoal, o jogo de tabuleiro de degustação às cegas hoje atende a uma lista de gigantes corporativos, do setor financeiro ao de tecnologia.
No final de 2020, o mercado brasileiro de vinhos ganhou um novo componente que não vinha dentro de uma garrafa. O "Mestre dos Vinhos", um jogo de tabuleiro focado em degustação às cegas, chegava à sua primeira tiragem das três edições lançadas em um total de 2.150 exemplares dedicado a vinhos tintos. O projeto foi idealizado por Marcos Gomez, profissional com longa trajetória na área comercial de veículos de comunicação, como a Editora Abril, e que hoje atua na Esquire Brasil.
O jogo não nasceu como uma mudança de carreira, mas como um desdobramento de uma prática comum no meio publicitário: a reunião em torno do vinho para estreitar laços profissionais. Gomez, que durante sua carreira gerenciou contas de patrocínio e títulos de gastronomia na editora Abril, percebeu que havia uma oportunidade de transformar a dinâmica das confrarias em um produto estruturado. Foram 18 meses de desenvolvimento até que o regulamento e o design estivessem prontos para o lançamento.
O lançamento do jogo coincidiu com um dos momentos mais restritivos da pandemia, o que impôs um obstáculo logístico a um produto que depende da interação presencial. No entanto, o que poderia ter sido um impedimento acabou abrindo caminho para um novo modelo de negócio: o dos eventos corporativos. Hoje, o Mestre dos Vinhos funciona em duas frentes. A primeira é a venda física para o consumidor final, com preço de R$ 699,00, com algumas ações promocionais eventuais. A segunda, e talvez mais estratégica, é a aplicação do jogo como ferramenta para eventos corporativos.
Empresas como AWS Amazon, Itaú, Suzano, Porto e Tintas Coral passaram a utilizar a dinâmica de Gomez em convenções e treinamentos. O objetivo é utilizar o vinho como um exercício de atenção e tomada de decisão. Na Tintas Coral, por exemplo, a dinâmica foi adaptada para correlacionar o catálogo de cores da empresa com as descrições sensoriais dos vinhos, como texturas e aromas, criando um ponto de contato prático entre o treinamento e o produto da marca.
A estrutura do jogo é técnica, refletindo a formação de Marcos Gomez, que detém a certificação WSET Nível 3. No tabuleiro de brancos, por exemplo, figuram 22 castas varietais e quatro estilos de corte. Os jogadores avaliam quesitos como idade do vinho, teor alcoólico, país de origem, casta e método de vinificação. A pontuação é distribuída conforme os acertos, e aquele que serve o vinho na rodada também pontua de acordo com o desempenho dos demais, o que exige uma escolha estratégica do rótulo levado à mesa.
Segundo Gomez, a observação de centenas de partidas revela um perfil específico do consumidor brasileiro: uma forte dependência de rótulos conhecidos e uma zona de conforto centrada em poucas uvas. O jogo, ao ocultar o rótulo, força o participante a buscar memórias olfativas e gustativas. "A degustação é fazer algo com atenção. Quando se faz com atenção, a capacidade de memorizar e perceber nuances aumenta", explica o criador.
Essa abordagem técnica permitiu que o jogo fosse aceito em ambientes acadêmicos e profissionais de peso, como a Enocultura, a ABS (Associação Brasileira de Sommeliers), o Senac e a Associação Brasileira de Enologia, onde foi utilizado como material de apoio para estudantes e profissionais do setor. O jogo também foi inscrito para concorrer a premiação anual da O.I.V com o propósito para a difusão da cultura do vinho no mundo. Apesar do volume de clientes corporativos — que inclui nomes como Moët Hennessy, Ogilvy e Meio & Mensagem — o projeto é mantido por Marcos como um negócio de nicho.
O custo de empreender no setor de jogos no Brasil, que envolve desde registros de marcas até logística de tiragens reduzidas, faz com que o projeto equilibre seus custos. As tiragens menores permitem ajustes constantes. Marcos planeja para as próximas edições um design mais minimalista, removendo excessos de informação visual para focar nas características sensoriais. A inclusão de castas menos difundidas no Brasil, como a grega Xinomavro ou a siciliana Nerello Mascalese, também está no radar, seguindo a proposta de expandir o repertório de quem joga.
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