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Pré-drink que reduz ressaca mira o trade de vinhos

Felipe Rebelatto, fundador da Novvo, pré-drink antiressaca, explica como fechou parcerias com importadoras e conquistou espaço em eventos do vinho.

08 de setembro de 2026
Pré-drink que reduz ressaca mira o trade de vinhos

Um dos grandes empecilhos tanto para consumidores quanto para a indústria de bebidas alcoólicas são os efeitos nocivos do consumo excessivo, em especial a famigerada ressaca. O empresário Felipe Rebelatto, engenheiro e ex-consultor da Deloitte, nunca teve como premissa ser um paladino dessa causa, mas o acaso o colocou diante de uma oportunidade de mercado única: em 2014, ele notou que um suplemento de foco e produtividade que tomava durante jornadas de até 20 horas na consultoria também amenizava seus efeitos após noites de happy hour. Foi assim que se tornou fundador da Novvo, startup de bem-estar que criou um pré-drink capaz de neutralizar o acetaldeído, substância tóxica gerada pelo fígado na quebra do álcool e principal responsável pelos sintomas da ressaca.

O achado virou objeto de pesquisa científica ao lado de um time de cientistas e engenheiros moleculares, resultou em patente registrada em 2016 e concedida em 2023, e deu origem a um produto vegano, sem contraindicações, hoje presente em mais de 8 mil pontos de venda no Brasil, incluindo as maiores redes de farmácia do país. Lançada oficialmente no Baile da Vogue de 2022, no Copacabana Palace, a Novvo já soma rodadas de investimento com nomes como BR Angels, Scale-Up/Clash Brasil e o Grupo WE, e projeta vendas de 2 milhões de doses neste ano, além de planos de expansão para os Estados Unidos. Para o trade de vinhos, o dado mais relevante talvez seja outro: segundo pesquisa interna da empresa, 92% dos consumidores da Novvo também são apreciadores de vinho, o que tem levado a marca a se aproximar de importadoras e eventos do setor como frente estratégica de crescimento. Nesta entrevista, Felipe Rebelatto detalha essa aposta, os bastidores da criação do produto e como pretende expandir a atuação no B2B do vinho.

Wine Trade News: O Novvo é um produto que já está há quatro anos no mercado. Como surgiu a ideia de criar um pré-drink?

Felipe Rebelatto: Foi descoberto por acaso, para ser bem sincero. Eu não tinha, na época, conhecimento químico ou científico para desenvolvê-lo, trabalhava em uma Big Four, em um ritmo muito pesado, e passei a tomar um suplemento importado de foco e produtividade, com estimulantes como cafeína, taurina e colina, para dar conta da rotina. Em algumas viagens a trabalho, percebi que acordava com muito menos ressaca nos dias em que tomava a fórmula à noite antes de sair. Fiz um teste informal com amigos e familiares, o retorno foi positivo, e decidi seguir em frente: contratei um cientista para estudar a fisiologia do álcool e a interação de cada componente da fórmula. Depois de oito meses, ele me ligou de madrugada dizendo que aquilo era mais sério do que eu imaginava e que não havia visto nada parecido no mundo. Foi o início da jornada de buscar publicações e patentes internacionais — e não havia nada equivalente.

WTN: E como isso evoluiu para a molécula e a patente que a Novvo tem hoje?

FR: Começamos a desenvolver o estudo técnico e os ensaios clínicos com cientistas, engenheiros de materiais e engenheiros moleculares, levantando os dados para o registro da patente, que demos entrada em 2016. Descobrimos que formávamos, no sistema gastrointestinal, um composto molecular capaz de neutralizar o acetaldeído — e que precisávamos potencializar esse efeito. Passei a pesquisar especialistas em glucosamina, nossa matriz molecular, até me associar a um laboratório no Canadá, ligado à Mars e responsável por inventar a primeira fórmula infantil do tipo. Levou um ano de negociação até fecharmos um acordo de codesenvolvimento; o time canadense se encantou com a descoberta e desenvolveu uma nova molécula, ainda mais potente. Chegamos à versão final no início de 2021. Hoje a USP é nosso braço de pesquisa e desenvolvimento, já trabalhando em moléculas ainda mais potentes, com laudo próprio comprovando a eficácia do produto na neutralização da toxina.

WTN: Como foi transformar essa descoberta científica em um produto de mercado — naming, posicionamento e lançamento?

FR: A experiência na Deloitte me deu uma visão de negócios que ajudou bastante nessa fase. Fizemos um trabalho de naming, branding e posicionamento, e o nome "Novvo" veio de uma expressão comum no Nordeste — "tudo novo?" —, opção que era apenas a quinta colocada na pesquisa que fizemos, mas que acabou vencendo. Construímos o posicionamento que a marca tem até hoje: um smart drink, o conceito de "beber com inteligência", tirando o álcool do papel de protagonista da noite e colocando a celebração no centro, com o álcool como coadjuvante. O lançamento, todo com produto importado, quase não aconteceu: a primeira carga caiu no canal vermelho da alfândega, que entrou em greve, e passei a virada do ano sem conseguir liberá-la. Só em fevereiro de 2022 conseguimos desembaraçar a carga, e como o Carnaval daquele ano tinha sido adiado por causa da pandemia, lançamos o produto no Baile da Vogue, no Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, com atuação em paralelo na Sapucaí, pelo Camarote Arara.

WTN: Depois do lançamento, como o modelo de negócio evoluiu?

FR: A ideia inicial, pensada ainda no pós-pandemia, era apostar no "novo normal" digital, no modelo de marca nativa online. Só que, assim que as pessoas experimentavam o produto e aprovavam, a pergunta mais comum era "vende em qual farmácia?". Isso nos obrigou a rever o modelo de negócio e migrar para uma estratégia phygital, física e digital ao mesmo tempo. Levamos cerca de dois anos e meio para entrar, sem intermediários, nas maiores redes de farmácia do Brasil — hoje estamos em mais de 8 mil pontos de venda, incluindo RaiaDrogasil, Drogaria São Paulo, Pacheco, Panvel, Pague Menos e Araújo, além de plataformas como Zé Delivery, Rappi Turbo e Shopper. Também atendemos condomínios e casamentos, já que o produto impacta diretamente momentos marcantes.

WTN: Como viabilizou financeiramente o desenvolvimento e o lançamento do produto?

FR: Depois de sair da consultoria, assumi a gestão de duas empresas de uma venture builder pequena, vendi a primeira em oito meses e a segunda em dois anos, o que me deu um capital inicial. Antes disso, a pesquisa com o cientista foi bancada em um modelo de "family, friends and fools", com apoio da família, e segui via bootstrapping até o lançamento. Depois, abri uma rodada de investimentos e reuni um pool de investidores anjo, fundos institucionais e um corporate venture capital, o Grupo WE, além do Rony Meisler e do James Scavone, que me ajudou a construir a marca e o posicionamento. A ideia inicial era captar R$ 3,25 milhões, mas propus aos investidores que aportassem tudo de uma vez, com a opção de investir mais R$ 1 milhão em até 12 meses caso a empresa performasse — e assim ajustamos a rodada para R$ 4,25 milhões. Isso foi essencial porque o produto é importado: pago a operação do laboratório canadense à vista, mais cerca de 89% do valor em impostos para nacionalizar a carga no Brasil, além da produção local, envasamento, logística e armazenamento, uma operação de bens de consumo que exige caixa robusto.

WTN: Por que não desenvolver o produto com um laboratório brasileiro, e como funcionou a aprovação regulatória?

FR: Nossa matriz fúngica cresce especificamente em ambientes gelados do mundo, então teria que trazer a matéria-prima bruta para o Brasil e investir em equipamentos, licenças e equipe própria. No Canadá, tenho como sócio um laboratório que se apaixonou pelo projeto e fornece a molécula a preço de custo. Do lado regulatório, quando comecei, exigia-se um protocolo de anuência da Anvisa; depois, com a entrada dos insumos do produto na RDC 240/2018, ele deixou de precisar de registro prévio, mas mantenho a anuência que comprova que o produto não faz mal ao organismo.

WTN: Consegue nos dar uma ideia da evolução do volume vendido, ano a ano?

FR: No primeiro ano, entre maio e dezembro, distribuímos gratuitamente uma média de 250 mil doses — sachês de três cápsulas — em ações de amostragem antes de grandes eventos e festivais. Essa estratégia foi importante porque outra marca havia lançado antes um produto sem comprovação científica, com marketing forte mas baixa eficácia, o que gerou desconfiança no mercado de antiressaca — e a melhor forma de reverter isso era fazer as pessoas experimentarem. Em paralelo, já vendíamos: cerca de 30 mil doses no primeiro ano, 120 mil no segundo (2023), 500 mil no terceiro. Em 2025, vendemos 1,5 milhão de doses, e a projeção para este ano é de 2 milhões.

WTN: Um dos maiores desafios da indústria do álcool são os males associados ao consumo — inclusive com grandes países produtores de vinho arrancando videiras por queda nas vendas. Você já fechou negócios com importadoras, produtores ou empresas de eventos do setor? Como está o B2B do produto?

FR: Essa é uma ótima pergunta, e ela toca em dois pontos. Um deles é a própria composição do vinho, com antioxidantes que trazem qualidade e longevidade à bebida. O outro é uma pergunta que já ouvi muitas vezes em entrevistas: se eu não me preocupo em incentivar o abuso de álcool. Pesquisei os principais fatores associados à dependência alcoólica e percebi que a ressaca é um dos maiores — quem bebe e acorda mal no dia seguinte perde rendimento e muitas vezes reage tomando outra dose para se sentir melhor, um ciclo alimentado pela própria ressaca. Encontrei estudos nesse sentido em países como Coreia do Sul, China, Japão e Nova Zelândia, e isso mudou minha forma de olhar para o produto: nosso foco é "beber com inteligência", equilibrar o consumo, não incentivá-lo. Fizemos uma pesquisa para entender melhor o nosso consumidor e descobrimos que 92% dos nossos clientes consomem e apreciam vinho, o que nos permite direcionar melhor a comunicação para esse público. É importante frisar que o Novvo não retarda a embriaguez nem impede que a pessoa fique bêbada — ele neutraliza o acetaldeído, responsável pela tontura, o mal-estar e a perda de coordenação do dia seguinte, mas não elimina o efeito do álcool no momento do consumo.

No B2B, temos parcerias com fornecedores e importadoras que nos procuram por indicação, participamos de eventos do setor e fazemos degustações de novos rótulos que ajudam a girar o estoque dessas empresas. O vinho é um dos nossos focos hoje, ao lado de casamentos e eventos esportivos, porque é através da experimentação — sentir o efeito na prática — que conquistamos o cliente brasileiro, que costuma ser desconfiado com esse tipo de promessa.

WTN: Cerveja, vinho e destilados têm teores alcoólicos diferentes. A recomendação de uso muda de acordo com a bebida?

FR: Optamos por não criar uma recomendação variável por tipo de bebida, porque, na prática, a pessoa se esquece de tomar doses adicionais ao longo do evento. Definimos uma dose padrão de três cápsulas, que oferece suporte equivalente a cerca de sete doses de bebida alcoólica — o produto funciona como uma espécie de "esponja" do acetaldeído, que satura em determinado ponto. Na embalagem, orientamos que, ao ultrapassar sete doses, o consumidor tome uma cápsula adicional.

WTN: Quais os planos de internacionalização e o que vem pela frente para a marca?

FR: O foco inicial são os Estados Unidos, começando pela Flórida, onde está a maior concentração de brasileiros fora do país, um mercado grande, mas de concorrência forte, seguindo orientação do nosso laboratório parceiro no Canadá de que a expansão comece pela América do Norte. A Europa deve vir depois, por reunir culturas muito diferentes em um território menor. Além disso, já pensamos em novos produtos com a mesma biotecnologia embarcada: uma linha voltada a foco e concentração para uso ao longo do dia de trabalho, um produto de hidratação para treinos e um voltado à melhora do sono. A ideia é somar produtividade e bem-estar ao dia a dia do consumidor, além da noite.

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